Quer nos visitar? Somos uma família!

Avenida Novo Osasco, 700 - Osasco - SP // +55 11 3609-1668

Teologia: que bicho é esse? Parte 1

Teologia é a ciência de Deus e das relações entre Deus e o universo.

Augustus Hopklin Strong

Introdução

            É bem comum nos circuitos evangélicos, sobretudo no meio pentecostal, ainda uma certa resistência quando o assunto é teologia. Para muitos, teologia é algo chato que deve ficar longe da igreja que não serve para muita coisa, pois a Bíblia por si só já seria o suficiente para ler e entender suas verdades. Sobre isso, diz Alister McGrath[1]

A maioria das pessoas não acha importante a teologia. Escrevo estas palavras com tristeza […] A teologia é vista normalmente, até mesmo entre os cristãos aplicados, como as especulações sem sentidos vindas de pessoas que deveriam estar fazendo algo mais útil de sua vida – como pastorear igrejas ou trabalhar no campo missionário. 

            Esse comportamento no meio pentecostal, tem raízes históricas. Em 1904, quando começou o movimento conhecido como movimento da “segunda benção”, na Rua Azuza, nos Estados Unidos – Califórnia, já era um mover de protesto pelas igrejas históricas estarem vivendo um intelectualismo frio, sem muita devoção, que mais ficava nas preocupações teológicas do que o acender da chama do Espírito Santo no coração. Algo parecido com o que ocorreu no tempo de John Wesley na Inglaterra. Nos documentos que registram a vinda de Daniel Berg e Gunnar Vingren para o Brasil, em 1910, se nota que a grande preocupação que eles tinham era com o mover do Espírito Santo, deixando as outras questões, como teologia e estudos mais sérios das Escrituras em segundo plano. Assim, o nascer do movimento pentecostal, já por si só, foi como uma “contrarreforma”, por assim dizer, ao intelectualismo cristão.

            E enxergando por esse viés, tinha sua razão de sê-lo. Não obstante, a longo prazo, isso teve seus efeitos colaterais. O resultado (apesar de, graças a Deus, muitas igrejas pentecostais acordarem, tardiamente, para realidade de ter que estudar teologia como a própria Assembleia de Deus – mãe do pentecostalismo brasileiro) foi um crescimento de um sincretismo religioso que deturpou a doutrina cristã, onde a essência dos dogmas clássicos da cristandade estão cada dia mais perdendo-se em detrimento de ensinos antropocêntricos; isto é, que enaltecem mais ao homem do que a Deus. Mas infelizmente, não vamos nos aprofundar em questões históricas, aqui só relatamos tal fato à guisa de introdução em contraponto à questão da teologia e sua importância.

O que é teologia?

            Definir o que é teologia de maneira semântica não é algo difícil, mas como veremos adiante, teologia vai muito além da definição lexical. Dito de maneira simples e etimológica, o termo teologia é a junção de dois termos gregos “theos” que significa “Deus” e “logos”, que tem por significado “razão, discurso, palavra, estudo, tratado”. A teologia não é somente uma “ciência” acerca de Deus, ela pode, e deve se relacionar com o homem e o universo. Visto que o universo é apenas uma manifestação de Deus e se distingue dele, há ciências da natureza e da mente. A teologia é a “ciência das ciências”, não porque inclui todas as ciências, mas porque emprega os seus resultados mostrando sua base de maneira implícita.

            Mas a palavra teologia, em si, pode ter múltiplos significados. Vamos alguns sugeridos pelo teólogo Pannerberg em sua obra magna Teologia Sistemática:

  1. O termo teologia foi usado com o sentido de história de mitos e lendas dos deuses por Platão (427-347 a.C.).
  2. Na Grécia, os poetas levantam o nome de teólogos por suas composições em honra aos deuses. A famosa Teogonia de Heródoto,[2] era, na realidade, discussões filosóficas a respeito do divino (teogonia) e do mundo (cosmogonia) que, dito do sentido latino do termo, pode ser considerado “teologia”.
  3. Sócrates chamou uma das três disciplinas da filosofia de “teologia”, o que postumamente foi chamado de “metafísica”[3], pois o escopo da disciplina visava o estudo do divino como princípio de todo ser.
  4. Os estoicos, posteriormente, distinguiram uma “teologia” dos filósofos que se adequava à “natureza da divindade da teologia mítica dos poetas, e da teologia política dos cultos estatais: aqui teologia já é mais somente objeto de análise filosófica, e, sim, é ela mesma”.[4]

            Karl Barth, um dos maiores teólogos do século 20, discorrendo sobre a teologia assevera:

A teologia representa um dos empreendimentos humanos costumeiramente qualificados de “científicos” que têm por finalidade perceber um objeto ou uma área como fenômeno, compreendê-lo em seu sentido e tematizá-lo em todo alcance de sua existência – é isso, dentro do caminho indicado pelo próprio objeto em questão. O termo “teologia” parece indicar que ela, por ser uma ciência particular (e muito particular!) visaria perceber, compreender e tematizar a “Deus”.

            Dito isso, pôde-se dizer, de acordo com Pannenberg que “O teólogo é o proclamador da verdade divina e inspirado por Deus, e teologia é a proclamação. Isso permaneceu vivo ainda no uso linguístico posterior dos cristãos. Nesse sentido, os autores bíblicos puderam ser chamados em um conjunto de teólogos.”[5]

            Assim, teologia seria o estudo de Deus, ou, como prefiro definir, o estudo acerca de Deus ou melhor ainda, o estudo da revelação de Deus ao homem, pois me parece impossível alguém estudar Deus como se o mesmo fosse um objeto de estudo científico. A teologia não pode ser entendida como um conhecimento teórico, abstrato e científico de Deus, como propõe os cientistas, que dizem que o estudo sério tem que ser feito sem paixão e com imparcialidade, mas sim, pelo menos no que se concerne à teologia cristã (que é a que nos interessa aqui), a mesma precisa se planificar em um conhecimento prático e existencial de Deus através das Escrituras sob a iluminação do Espírito Santo.

10891634_10152782585274177_1968664424803837800_n

Ev. Josias Silva

Josias Silva é casado com Juliana Bezko, evangelista na Igreja Evangélica Avivamento da Fé (sede) , líder geral da UMAFÉ. Graduado em Teologia e História e Mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Autor dos livros Conversas sobre Deus, o mundo e o homem e A igreja sendo igreja. Escritor do blog Crer também é pensar.  http://crertambemepensar.wordpress.com


[1] Alister MsGrath é um dos maiores defensores da fé cristã da atualidade, autor do livro O Delírio de Dawkin, livro em que mostra os pontos fracos de um dos maiores de defensores do neoateismo da atualidade Richard Dawkin. McGrath é professor de teologia histórica da Universidade de Oxford sênior do Harris Machenster College, possui doutorado em biofísica e em teologia pela Oxford.

[2] Ver: Teogonia de Heródoto é um importante livro em que o escritor escreve sobre a mitologia grega, deuses e heróis que tentavam explicar a formação do homem e do mundo. Sua importância, para nós cristãos que estudamos, incide em ver como os gregos enxergavam a formação do mundo, pois, muito do que os gregos relatam em suas “teogonias” e “cosmogonias” perpassam por paralelos da cultura judaico-cristã, ou seja, os hebreus já tinha respostas mais convincentes no que tange a origem do universo e o homem e os gregos postumante podem ter se influenciado ao tentar dar respostas teológicas para a formulação de tudo em sua volta e a si mesmos.

[3] A palavra “metafísica” significa algo que está para além do que é físico; isto é, tudo que passa do mundo que se coloca diante de nossos sentidos, o que vemos, tateamos, ouvimos, etc. Metafísico é o “mundo” além do mundo. 

[4] Wolfhart Pannenberg: Teologia Sistemática, Vol. 1, p.25

[5] Ibidem, p. 25

Comentários estão desabilitados.